Iaçu: lendas e narrativas “Além da imaginação”

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Banhada pelo rio Paraguaçu a cidade de Iaçu tem  280 km separando-a da capital baiana,  uma rica tradição cultural, principalmente no que tange a literatura local,  apesar da sua população não passar de 28 mil habitantes,  as lendas e causos que circulam de geração a geração mantem viva cada narrativa oral fantástica capturada.

A  emancipação política  de Iaçu se deu em 14 de agosto de 1958, conquista desenhada  há muitos anos pelos munícipes que viam o Sítio Novo, como era chamada,  sendo povoado nas proximidades da ferrovia que estabelecera no local. Ferrovia essa, que trouxe além do povoamento,  o desenvolvimento  também. As festas mais badaladas trazem a marca da religiosidade: São João, no mês de junho;  Sagrado Coração de Jesus, Padroeiro da cidade, em setembro; Santa Luzia, em dezembro, recentemente entrou no calendário a Vaquejada, sem mês específico. O grande destaque  da festa de São João, mais tradicional do lugar, é trazer de volta em forma de representação, os primeiros visitantes/moradores que chegaram de trem, comumente chamados de “candangos”.  A festa de abertura é marcada pelo trem de passageiro “Mochilão”, um vagão ornamentado que conduz os turistas por alguns trechos da ferrovia, por isso, justifica-se o nome “Arraiá do Mochilão”.  No entanto, esse texto dará destaque para as lendas do lugar sob o olhar de estudantes da educação básica, provavelmente, um olhar que vai bem além da imaginação…

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Há muitas histórias sobre as lendas dessa cidade. Como o compromisso do TOQUE POÉTICO é divulgar, semear a literatura à margem, não deixaremos essa rica tradição oral cair no esquecimento e todo mês de agosto, contamos, divulgamos sobre as lendas iaçuenses.  Seja através dos recontos que chegam até nós, pesquisas solicitadas aos estudantes de ensino médio ou registros memorialísticos, a fim de que as lendas iaçuenses se solidifiquem como marco da nossa cultura. É o  que estamos fazendo, graças as tecnologias acessíveis.

Assim, nada mais justo, creditar essa iniciativa a quem de fato faz isso de forma incansável, a nossa colaboradora e  pesquisadora Elisabeth Amorim. Ela, em 1999, como professora de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira do Col. Estadual Lauro Farani (CELF) desenvolveu uma pesquisa com seus alunos de Formação Geral sobre as lendas regionais e lendas populares.  E com base na narrativa oral, muitas entrevistas foram realizadas, culminando o projeto com o livro intitulado: “Além da Imaginação”,  a foto em destaque.  Detalhe, os  duzentos exemplares impressos foram todos vendidos antes do dia do lançamento, através de reservas para garantir o exemplar. Se há mais livros que resgataram as lendas iaçuenses, não temos conhecimento, caso o leitor saiba e quiser nos ajudar, com fotos, fatos e relatos, estamos à disposição para fazer a divulgação, pois é o nosso ponto forte, apresentação da literatura que se produz neste município.

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De lá para cá muitas  pesquisas foram feitas. As imagens acima mostram as lendas iaçuenses registradas por E. Amorim (postadas em diferentes blogs e sites) sendo recontadas por estudantes do ensino fundamental e apresentadas na última Feira da Educação do Município, ocorrida no mês passado. Lendas mexem com a nossa imaginação,  e dezessete anos depois do livro “Além da imaginação”  novas lendas surgiram, mas esse livro é o pioneiro da cidade que mostra as lendas regionais como fruto das pesquisas de estudantes de educação básica.

 

Vale ressaltar que o livro  “Além da imaginação” não ficou apenas nas lendas. Como a pesquisa durou todo o ano letivo de 1999, pois a intenção era resgatar a cultura popular, ele foi dividido em quatro etapas, a saber: As lendas, com o título “Acredite se quiser”; uma série de provérbios, frases de para-choque de caminhão e adivinhações, esse capítulo recebeu o título “ Adivinha, adivinhão”; no terceiro capítulo “ O Canto da sereia”, nele apresenta os estudantes como pesquisadores  nas escolas infantis, realizando oficinas  sobre as cantigas de rodas,  socializando  as etapas de desenvolvimento, bem como investigando sobre as cantigas de rodas aplicadas nas escolas visitadas.  Já o último capítulo foi destinado a uma série de trava-línguas como espécie de desafios entre os envolvidos da pesquisa, experiências ricamente registradas, teve o título “Língua afiada”.

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Algumas lendas  locais que foram capturadas através das entrevistas com moradores mais antigos da cidade de Iaçu: “O lobisomem iaçuense”, “A lenda do extintor”, “Banheiro Ocupado”, “O mistério de uma escola”, “A salamandra do Paraguaçu”, “A lenda da Mulher de branco”, “O sino encantado”, “A mulher sem cabeça”, “A lenda do caipora”, “A mulher da trouxa”,  “Vulto”, “A Mulher do Bambolê”, “O Passageiro Indesejável”, “Serpente do Paraguaçu” e “A casa de pedra”.

Confessamos aqui,  que algumas lendas eram totalmente desconhecidas, só com a existência desse livro que passamos a conhecê-las. Percebemos também que além das pesquisas, os estudantes de Formação Geral dramatizaram cada objeto da pesquisa, criando um ambiente propício,  as representações lendárias foram fotografadas e serviram de ilustração do referido livro.

Como algumas dessas lendas já foram escritas aqui e em outros espaços virtuais, hoje priorizaremos as menos conhecidas, lembrando ao caro leitor, esse “re-conto” será feito com base na pesquisa dos estudantes que escreveram “ Além da Imaginação”.  Certo?

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Lenda 1:  O passageiro indesejável ( adaptação do livro  “Além da Imaginação)

Segundo a lenda há um trecho muito sinistro no caminho entre Iaçu e o distrito de Faustino.  Por quê?  Ora, muitas coisas inexplicáveis acontecem deixando o local mal assombrado.  E é comum aparecer um “carona” na estrada fazendo gestos para os motoristas pararem, mas os motoristas aceleram, por se tratar de uma assombração, que rapidamente desaparece.

Como o local não é de grande movimento, muitas pessoas já se acostumaram com a presença indesejável.  E não é que um motorista ao acelerar percebeu ao seu lado o “passageiro indesejável”?  E desde então, é esse tal motorista passar no local, tem a companhia desse carona. Como disseram os estudantes… “ Que sufoco!”

 

Lenda 2:  A mulher sem cabeça (adaptação do livro “Além da imaginação “)

 

Trata-se de uma história de uma mulher que fazia parte dos grupos de romeiros que regularmente iam para a Lapa em cima de caminhão.  E numa dessas idas, a filha ficou em cima do caminhão, enquanto a mãe viajava na cabina. Talvez, por conta da idade.

E durante a travessia da ponte Severino Vieira que liga a cidade de Iaçu a Itaberaba, a moça foi falar algo com a sua mãe, não reparou os ferros da ponte… Teve a cabeça decepada.  Assim, transformou-se em lenda. Pois  essa mulher aparece no local do acidente assustando as pessoas.  Reescrevendo o que os estudantes registraram… “ Essa é mais uma lenda que nos foi passada por alguns munícipes mais antigos da nossa querida cidade, cidade(diga-se de passagem) que tem muita história”.

Lenda 3:  A lenda do Caipora ( adaptação do livro “Além da imaginação”)

Essa lenda resgatada pelos estudantes, traz  nome e o sobrenome de um agricultor da Fazenda Lagedinho, localizada no município de Iaçu, que passou pela experiência arrepiante, pois ele teve a oportunidade (talvez, única) de conversar com um caipora.

Conforme a pesquisa dos estudantes do CELF, tudo aconteceu quando o agricultor ( preferimos não revelar o nome)  estava desempenhando as suas funções quando foi interrompido pelo caipora.  Descrita como “homem baixinho” e que “gosta de aboiar”.   Sendo que o Caipora pede ao agricultor fumo, ao ser atendido, faz perguntas, mas diante das negativas do agricultor, ele desaparece misteriosamente.  Conforme  os registros encontrados: “O agricultor ouviu o barulho de uma boiada que a terra estremeceu, só ai ele percebeu que estava conversando com um caipora. Disparou numa carreira, largando o mel, e nunca mais voltou a passar por aquele local. “

Lenda 4: O mistério de uma escola ( adaptação do livro “ Além da imaginação)

Essa lenda foi escrita a partir do depoimento de uma ex-zeladora da Escola Municipal Rodrigo Burgos, localizada no Bairro da Boiadeira, na cidade de Iaçu.  E conforme o depoimento passado para os estudantes de Formação Geral/ 1999,  tudo aconteceu quando ela atuava como zeladora da referida escola e decidiu levar a sobrinha como acompanhante, como forma de se proteger das ações sobrenaturais que ali ocorriam.  E como ela percebia muitas coisas estanhas acontecendo, veja fragmentos do texto dos estudantes:  “cadeiras sendo arrastadas, luzes piscavam, portas batiam… E  com a presença da sobrinha, quem  sabe teria uma trégua…

Mas, para sua surpresa, enquanto a garota foi ao banheiro, deixando a porta aberta, essa porta foi trancada pelo lado de fora para o desespero da garota. Como isso aconteceu?

Esses são os mistérios de uma escola que muitos são vítimas, e inexplicavelmente a resposta esperada está ALÉM DA IMAGINAÇÃO.”

E assim, esperamos contribuir com mais essa pincelada cultural, fruto das pesquisas estudantis. Aqui neste mesmo blog, você poderá encontrar as diferentes versões recontadas por estudantes para “ A mulher de branco”, fruto de oficinas de lendas iaçuenses, bem como as lendas mais  conhecidas com um toque de humor e crítica. Basta buscar os causos iaçuenses  que essas lendas se apresentarão para você.

                          Toque Poético 

 

*imagens extraídas do livro ” Além da imaginação”

** imagens da VI Feira de Educação do Município.

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5 respostas para Iaçu: lendas e narrativas “Além da imaginação”

  1. Elisabeth Amorim disse:

    As lendas mexem com a nossa imaginação… Veio a lembrança de um grupo de alunas com um depoimento inusitado e socializado para toda a turma… elas eram responsáveis pela “captura” da lenda sobre a Mulher de Branco… Quem viu? Onde? Como? Quando? Após várias entrevistas com moradores antigos, as estudantes se preparam para “fotografá-la” ao escurecer. Optaram por um quintal da casa de uma delas, no Bairro da Boiadeira… no momento em que estavam fazendo as fotos, segundo a aluna que representava “Mulher de Branco”, ouviu um “sorriso contido como se tivesse alguém observando…” Pensando se tratar de uma brincadeira de uma delas, continuou fazendo as poses, mas o riso se transformara em uma gargalhada assustadora para o desespero de todas as alunas que estavam no local… Verdade?! Isso é mais um dado que vai ALÉM DA IMAGINAÇÃO.

  2. Alzira Souza disse:

    Lendas e narrativas simplesmente fantásticas! Parabéns Elisabeth Amorim!

  3. toquepoetico disse:

    Oi Alzira, sempre gentil. Obrigada por nos acompanhar professora, pois a sua presença no nosso espaço é sempre um prazer.

  4. Gilmar disse:

    Parabéns professora Beth e aos seus colaboradores. Ótimo site!!! Sempre que posso estou lendo vossos textos aqui e utilizando-os em minhas aulas.
    Gilmar

    • Elisabeth Amorim disse:

      Olá Gilmar. Agradecemos imensamente a sua presença, ficamos felizes em saber que de alguma forma estamos contribuindo com a leitura e formação de leitores. Volte sempre, o espaço é todo nosso!

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