Fogo morto (olhar nordestino 1.5*)

O romance “ Fogo Morto”(1943) de JOSÉ LINS DO REGO,  escritor paraibano (1901-1957) traça um perfil de criaturas  decadentes com a desativação dos engenhos de cana-de-açúcar. Sendo a economia do nordeste sustentada pela produção de açúcar, com o declínio do Engenho Santa Fé,  morre não apenas  o fogo que alimentava o engenho, mas a esperança de prosperidade e melhorias para toda a região.

“Fogo Morto” é um livro emblemático, dividido em três partes, aparentemente,  independentes, mas que se complementam: “ O mestre José Amaro”,  “O engenho do Seu Lula” e a terceira “ Capitão Vitorino”.  Três nomes de personagens que protagonizam e em algumas situações antagonizam a narrativa de José Lins do Rego.  Quais as relações entre os três personagens?  Como esses personagens se constroem e desconstroem ao longo do romance?

Primeiro,  Mestre Zé Amaro, sapateiro do lugar ou “José Amaro” era considerado um ser esquisito, machista, morava à beira da estrada, numa casa que pertencia ao Luis Cezar de Holanda, o Lula, dono do Engenho Santa Fé.  Mestre Zé tinha hábitos estranhos e péssima relação com a esposa Sinhá e filha Marta, saia à noite, sempre sozinho.  Em alguns momentos, ele parecia odiar as mulheres que viviam sob o mesmo teto, principalmente a filha Marta, solteira,  constantemente agredida, a moça chorava com frequência, irritando-o mais ainda.   Mestre Zé era um ser temido do lugar:  o lobisomem, conforme a crendice do povo. Ao desentender-se  com o proprietário do Engenho Santa Rosa, decide não realizar nenhum serviço para ele(José Paulino). Consequentemente,  seu ato teve volta, as intrigas chegaram até o Lula, dono das terras onde Mestre Zé morava, e ele foi convidado a desocupar a casa. O seu destino é selado no final do romance, quando ele passa por humilhações públicas ao ser preso e apanhar do capitão Maurício,  não resiste e comete o suicídio no Engenho Santa Fé.

O segundo personagem mais emblemático ainda, é o Lula. Este por interesse se casa com a futura herdeira do Engenho Santa Fé, Amália.  E desde a morte do sogro, revela-se um ser desprezível, autoritário, ambicioso e egoísta.  E como a sogra D. Mariquinha não deixava Lula tomar as decisões pretendidas para não falir o engenho, ele se vingava através da filha “Nenem”, distanciando-a da avó.  Entre as numerosas brigas, com a morte de D. Mariquinha, o Engenho Santa Fé fica sob direção de Lula.  Prepotente, não deixa ninguém se aproximar da filha Nenem. Com a abolição da escravatura, nenhum escravo quis continuar no engenho devido  maltrato do senhor Lula.  Como a situação do Engenho Santa Fé era cada vez mais decadente, Dona Amália, vendia ovos, frangos às escondidas do esposo, mas só assim, conseguia o sustento da casa.

Já na terceira e última parte traz a história do Capitão Vitorino, espécie de visionário quixotesco muito querido do lugar, por defender os mais oprimidos. No entanto não escapava dos apelidos dos garotos, irritando toda vez que ouvia “Papa-rabo”.   Era o tipo que  falava o que sentia, desaforado, isto lhe custou uma surra do tenente Maurício, bem como a prisão.  Logo, teve quem intercedesse e pedisse que o soltasse. Fato que valia contar as glórias e ampliar a lenda favorável a sua pessoa.

Capitão Vitorino, apesar das suas esquisitices, era um dos personagens mais coerente e solidário da vila.  Ao saber da injustiça que o Mestre Amaro sofrera, foi o primeiro a se colocar à disposição, buscar apoio de jornal para denunciar a arbitrariedade do sistema. Mesmo que a sua ajuda custasse muitas humilhações públicas, mas o Capitão Vitorino não  se abaixava diante dos obstáculos, recorria a imprensa, a justiça, enfim, as autoridades locais  para tentar fazer parar as injustiças sociais.

     Toque Poético 

*Para divulgar a literatura produzida no nordeste e que traz o foco a questão regional, estaremos apresentando os cânones nordestinos.

 

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