Morte e vida severina (olhar nordestino 2.5)

    

João Cabral de Melo Neto (1920-1999) nasceu em Recife e faleceu no Rio de Janeiro,  grande nome da literatura brasileira regionalista, da geração modernista de 45. Linguagem perfeita, João Cabral está entre os melhores poetas brasileiros, preocupava-se com métrica, formalidade, sendo que o sertão nordestino com os problemas recorrentes da seca e miséria  são temas dos seus poemas.

“Morte e Vida Severina”(1956)  ´trata-se de uma peça de teatro em versos. Uma obra que chamou atenção desde o seu lançamento na década de 50  e desperta interesse até os dias atuais.  Vale lembrar que o autor considerou a sua peça como Auto de Natal Pernambucano, por conta do enredo ambientar-se em Pernambuco e a sequência de versos curtos muito se aproximar dos autos medievais. Lembrando que auto é  um gênero textual de caráter religioso, dramático escrito com a intenção de ser encenando. E esse auto com o drama dos  retirantes nordestinos é o mais encenado no Brasil.

Vejamos como o autor utiliza-se de versos prefeitos para apresentação inicial do personagem, justamente quando o retirante explica ao leitor quem é :

“… O meu nome é Severino

não tenho outro de pia.

Como há muitos Severinos

que é santo de romaria,

deram então a me chamar

Severino de Maria;

como há muitos Severinos

com  mães chamadas Maria

fiquei sendo o da Maria

do finado Zacarias.

Mas isso ainda diz pouco:

há muitos na freguesia

por causa de um coronel

que se chamou Zacarias

e que foi o mais antigo

senhor desta sesmaria.

Somos muitos Severinos

iguais em tudo na vida

na mesma cabeça grande

que a custo se equilibra

no mesmo ventre crescido

sobre as mesmas pernas finas,

e iguais também porque o sangue

que usamos tem pouca tinta…”

Severino se identifica muito bem em  falar a quantidade de outros Severinos com as mesmas características que ele, um retirante, que se desloca para tentar a sorte num local mais próspero,  perto do litoral, no entanto em cada canto que passava percebia o quanto o seu drama se parecia com os de outros que também anseiavam por dias melhores.

Em todo o percurso  a morte de retirantes como ele é uma constante, fato que ele chama “irmão de almas” quando encontra o enterro. Ao tentar se estabelecer num local, entristeceu com a morte do Rio Capiberibe, descobre que o seu oficio de lavrador não tinha  nenhuma serventia ali, mas ele teria que desempenhar a função de coveiro, rezador, algo ligado a morte. Pois no local era constante o conflito entre posseiros e latifundiários, e os “serverinos” morriam diariamente, não só de “morte matada  ou morte morrida” E Severino prossegue a sua viagem, desiste de pouso.

O ponto alto da peça é quando Severino chega à Recife ao descansar no muro do cemitério ele ouve a conversa entre dois coveiros,  indignados com a quantidade de retirantes que chegavam ali para dar trabalho para eles. Segundo eles, caminhavam tanto para morrer na cidade grande.  E o diálogo ouvido funciona como um golpe para Severino, pois decide ser mais um a se matar por conta das decepções.  E ao se dirigir para se jogar de uma ponte, surge José, o mestre carpina, para aconselhar a não interromper a vida.  E quando Severino pede apenas um motivo para não cometer o suicídio, o diálogo é interrompido pois havia nascido o filho de José.

Assim, diante da vida, mesmo miserável, explode a alegria. O nascimento supera todos os obstáculos. Pois uma nova vida, um novo acontecer, uma nova esperança brota daquele local.  Severino ao assistir o  espetáculo da vida, diante das pessoas que se alegraram com aquele nascimento, decide abraçá-la. E fica a mensagem desse grande escritor, mesmo diante das adversidades, vale a pena viver.

Toque Poético

 

Socializando cinco obras canônicas  sobre o nordeste.

olhar nordestino 1.5 – Fogo Morto – José Lins do Rego

 

 

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