São Bernardo (olhar nordestino 4.5)

O livro “São Bernardo” (1934) do alagoano Graciliano Ramos (1892-1953)  apresenta  a história de um homem rude, autoritário que desumaniza gradativamente para atingir os seus objetivos.  Justamente ele, Paulo Honório é personagem-narrador que sem nenhum enfeite nem remorso relata a  sua trajetória para ocupar a posição ocupada: proprietário da Fazenda São Bernardo.

Paulo Honório após alguns anos que perdera a sua esposa Madalena, resolve  escrever a própria história. Como ele chegara até ali? Com quem ele fez alianças? Quantas pessoas ele havia destruído? Quantas vidas foram ceifadas por conta da sua ambição desmedida?  Bem,  o romance de 30, regionalista traz sem dourar a pílula a vida pregressa de um rico fazendeiro que em determinado momento olha para traz e só consegue ouvir o choro e a tristeza das pessoas que ele havia magoado.

Criado na infância por uma doceira, Paulo Honório viveu de tudo um pouco. Ainda jovem foi parar na prisão por esfaquear um homem. Durante o período da prisão ele aprendeu a ler e escrever, bem como, decidiu que sairia dali para ganhar dinheiro.  E isso ele fez. Começou com uma pequena quantia tomada de empréstimo, para também entrar no ramo da agiotagem.  Temido pela violência que cobrava os seus devedores, Casimiro Lopes tornou-se seu  braço direito em todas as falcatruas realizadas.

Paulo Honório decidiu que a próspera Fazenda São Bernardo seria dele.   Aproximou-se do herdeiro, o Luiz Padilha, conheceu as suas fraquezas, pois o jovem era boêmio, jogador, inexperiente e gostava de beber em demasia, com isso, numa mesa de bar a fazenda muda de dono por um preço irrisório, Luiz Padilha perde-a para Paulo Honório. E assim começa a ascensão do fazendeiro Paulo Honório.

No entanto, a ambição de Paulo Honório não tinha limites, para ampliar os limites de São Bernardo manda assassinar  o proprietário da fazenda vizinha, assim com a morte de Mendonça, dono da Fazenda Bom-Sucesso, misteriosamente a cerca da São Bernardo mudou de  lugar.  Briga feia com os herdeiros da Fazenda Bom-Sucesso, mas não era problema para Paulo Honório, pois as alianças com as autoridades locais ( padre, jornalista e advogado)  garantiam o arquivamento do processo.

Paulo Honório era temido pelos métodos utilizados para atingir objetivos, por isso quando decidiu que São Bernardo precisava de um herdeiro, não mediu esforços. Conheceu a professora Madalena e  investiu na relação pensando no herdeiro.  Com a proposta de levar escola para São Bernardo, convenceu-a morar na fazenda, como houve resistência, pois a jovem morava com uma tia( Glória), ele falou na possibilidade da tia ir morar lá também e ajudar na administração da casa.  E o casamento aconteceu. Paulo Honório, um homem bruto e arrogante com a “frágil  e submissa” professora Margarida, assim pensava ele.

O que Paulo Honório não esperava era que Margarida  fosse uma mulher determinada, forte, segura e muito inteligente. E os seus planos são estremecidos, pois queria ter a mulher insegura, submissa, frágil que seria como mais um “objeto” decorativo da fazenda.  E desde a chegada de Margarida a sua vida tão organizada para comandar, matar, humilhar e vencer, sofre um grande abalo.  Mesmo com a chegada do herdeiro, não foi o suficiente para Margarida parar de interferir na administração da fazenda, na escola e nos seus pensamentos.  E quanto mais ela participava, mas Paulo Honório tornava-se cruel, violento e vingativo a ponto de demitir empregados que conversavam com ela, e se desesperar achando que havia uma suposta conspiração  para derrubá-lo.

E nesse tormento, Paulo Honório descarregava toda a sua fúria em Margarida, acusando-a  de traidora, agredindo-a cada vez mais. Todos o temiam, pois conheciam os métodos utilizados contra os inimigos. E a jovem Margarida perde o interesse pela vida, e comete o suicídio.  E a carta  que Margarida fez, Paulo Honório achou que seria para um suposto amante, descobre que era para ele, uma carta de despedida.  E por conta dessa revelação, ele decide também fazer o registro, e escreve São Bernardo como um livro de memórias.

Enfim, Paulo Honório após a sua narrativa percebe que mesmo se tivesse outra chance tudo aconteceria da mesma forma, pois ele não mudaria, a vida tinha o tornado bruto, “monstro”.  No entanto, ele nem percebera que já estava mudado. Pois o fato dele reconhecer as  falhas, escrever sobre as próprias maldades e assumir a responsabilidade pelos atos ilícitos realizados, é uma mudança.   Paulo Honório termina solitário, triste e decadente igual a sua fazenda São Bernardo, tudo a sua volta se evaporou, restando-lhe o herdeiro planejado que também se mantinha distante do pai,  e o capanga Casimiro Lopes, “coisas”  adquiridas por um preço muito alto.

                                          Toque Poético

Conheça outros romances com os traços do sertão/ nordeste

1.5 –  Fogo morto – José Lins do Rego

2.5 – Morte e Vida Severina – João Cabral de Melo Neto

3.5 – Grande sertão: veredas – João Guimarães Rosa

 

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