O Santo e a Porca ( olhar nordestino 5.5)

O grande escritor paraibano Ariano Suassuna(1927-2014) foi o maior defensor da cultura popular do nosso país,  com o destaque para o nordeste. Autor de “Auto da Compadecida”, sua obra mais conhecida. Mas é na peça teatral em forma de comédia “O Santo e a Porca”(1957) que ele apresenta o homem em  conflito, dividido entre o espiritual representado pela  imagem de Santo Antônio e o material na figura da porca, espécie de cofre onde guardava todas as economias.

A peça é ambientada na casa do Euricão Árabe, onde residia com a sua única filha Margarida e a sua irmã Benona.  Além dos três membros da família,  havia  também uma empregada bem esperta chamada Caroba,  que apesar da sua esperteza, não conseguia fazer com que o patrão avarento pagasse em dia  o seu salário e do seu namorado Pinhão.

No entanto, a quebra da rotina acontece quando o dono da casa recebe uma carta do rico fazendeiro Eudoro, um viúvo que no passado havia tido um romance com Benona. Ele estava disposto a se casar novamente, viria pedir a mão de Margarida em casamento.  Como Margarida (filha de Euricão) havia passado as férias  na fazenda de Eudoro, ele escreveu para o pai da jovem dizendo que retribuiria a visita, porém  levaria  o bem mais precioso que ele tinha.

Caroba logo percebeu do que se tratava.  A Margarida era a filha única de Euricão, ela representava esse bem precioso. Mas Euricão por ser avarento e ganancioso, preocupou-se com a porca onde guardava dinheiro, logo achou que o fazendeiro queria lhe roubar.  E começa a sua batalha para esconder o seu tesouro.  E por ser devoto de Santo Antônio, ele cobrava constantemente do santo a proteção pela sua porca, sem jamais pensar na filha, verdadeiro tesouro que ele tinha.

Assim a peça acontece em três atos. Caroba articulava para que Euricão não descobrisse que a sua filha Margarida namorava Dodó, filho de Eudoro que fazia algum tempo se distanciou da casa do pai, fingindo-se estudar fora.  Caroba convencia o patrão a ficar esperto com a visita, pois poderia ser um suposto golpe. Com a chegada de Eudoro à casa de Euricão,  Caroba se aproveita da situação, inclusive pedir umas “terrinhas” ao Dodó para que o segredo não fosse revelado.  E de tudo ela  fazia para que o equívoco prevalecesse. Enquanto o Eudoro pensava em se casar com a jovem Margarida, Caroba trabalhava para Euricão  Árabe pensasse que o fazendeiro estava querendo era dinheiro emprestado. A avareza era tamanha que Euricão não percebia a distorção do discurso feito pela sua empregada.

Quando finalmente a verdade é revelada, pois a porca não tinha mais serventia,  Euricão percebe que a vida inteira acumulou dinheiro para nada, pois o dinheiro se desvaloriza,  sai de circulação, é roubado…  e a sua pequena fortuna não passava um amontoado de papeis velhos.  Quando faz uma reflexão do que realmente vale a pena guardar nesta vida, Eurico percebe que ficara sozinho, restando-lhe apenas a companhia do santo que permanecia inerte sobre a mesa e a porca.

Mais uma vez, o autor Ariano Suassuna conseguiu  criar uma obra brilhante.  O que o homem tem de mais valor?  Que tesouro devemos acumular na terra?  A meio a toda confusão hilária da peça teatral, fica a lição. Os bens materiais podem perder o valor, o ladrão poderá levar, as traças podem comer, um golpe poderá acontecer e modificar todo o cenário.  O homem morre e toda a vaidade, ganância, avareza ficam como lembranças. Que história de vida deixamos para os nossos filhos?

“O santo e a porca” sacode as estruturas do ser humano.  Promove a reflexão  sobre os valores atribuídos às coisas materiais.  Euricão perdeu a filha Margarida, pois ela casa-se com Dodó, perdeu também a irmã Benona que reatou o relacionamento com Eudoro, até a empregada Caroba se arranjou com o seu Pinhão, outro empregado de Euricão.   E Euricão passa a questionar ao santo sobre o porquê do ocorrido, se tudo que havia feito  realmente valeu a pena…

E nós? O que escolhemos diariamente? Alimentar mais o nosso lado espiritual ou o material?

  Toque Poético

Fica essa brilhante peça teatral como dica de leitura sobre  o olhar nordestino que se fecha temporariamente com essa obra.  Veja as nossas dicas anteriores:

1.5 –  Fogo morto – José Lins do Rego

2.5 – Morte e Vida Severina – João Cabral de Melo Neto

3.5 – Grande sertão: veredas – João Guimarães Rosa

4.5 – São Bernardo – Graciliano Ramos

  • Comentário feito a partir  encenação  do grupo teatral  “OS PROTAGONISTAS”.

 

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